Aspectos Preventivos no Esporte


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O aspecto preventivo no tratamento das lesões esportivas reveste-se de muita importância quer se discuta atividade física de alto desempenho quer como mero coadjuvante de tratamentos médicos.

A necessidade de aumentar a longevidade dos atletas, a maior indicação terapêutica de atividade física e o próprio aumento do número de pessoas que querem usufruir de seus benefícios fazem com que os aspectos preventivos devam ser encarados com prioridade cada vez maior pelos profissionais da área de medicina esportiva.

O desempenho esportivo de cada pessoa é baseado na interação de aspectos cognitivos, capacidades físicas e psicológicas, que, na presença de certos fatores externos associados a condições limitantes, levam à aptidão física.

A ocorrência de lesões esportivas é decorrência de inter-relação ente o atleta e o esporte praticado.

Toda atividade física gera uma sobrecarga em algum ponto do aparelho locomotor. Se esta sobrecarga fica circunscrita à capacidade fisiológica do organismo de se recuperar, não há a instalação de um processo patológico.

A base de todas as teorias envolvidas no trabalho de prevenção das lesões leva em conta a capacidade de se avaliar adequadamente as limitações de quem pratica o esporte associada ao conhecimento da magnitude e tipo de sobrecarga que a prática do esporte gera. Atletas bem condicionados sofrem um menor número de lesões.

Os aspectos intrínsecos (relacionados ao atleta) como biótipo do atleta, presença de lesões prévias, capacidades físicas desenvolvidas, presença de alterações corporais, desequilíbrios musculares presentes, são tão importantes nesta análise quanto os extrínsecos (relacionados ao esporte), por exemplo: tipo de esporte, material utilizado, regras utilizadas, quantidade e tipo de treinamento ministrado.

Os erros de treinamento, porém, são os maiores responsáveis pelas lesões esportivas (60% segundo JAMES, 1978). Estes erros geralmente são causados por: quantidade inadequada de treino (muita intensidade), técnica inadequada de execução e avaliação inadequada das capacidades e/ou necessidades do atleta.

A quantidade de treino que se aplica a um atleta é um produto das variáveis: freqüência, intensidade e duração. Cada período de treino (preparatório, competição intermediário) tem sua quantidade específica previamente determinada segundo as peculiaridades de cada esporte e respectivo calendário. Cada período de treino será subdividido em: microciclos (por ex.: planilhas de treino semanais, mesociclos (planilhas de treino mensais ou bimensais) e macrociclos (uma visão mais panorâmica das atividades do atleta levando em conta seus ápices de desempenho escolhidos).

Organizar e quantificar um trabalho de treinamento é a melhor forma para que treinadores, médicos, profissionais de educação física e terapeutas falem a mesma língua visando identificar pontos de risco neste cronograma de treino, evitando tanto o supertreinamento ou o mal condicionamento, ambos muito frustrantes para toda a equipe.

Três aspectos são básicos quando se discute treinamento: força muscular, flexibilidade articular e capacidade cardio-respiratória.

O trabalho muscular tem como dado primordial a carga máxima que um músculo pode suportar num determinado movimento. Temos que lembrar que nunca um movimento é executado por apenas um músculo e que sempre existe um músculo antagonista modulando a execução deste movimento. O trabalho muscular como qualquer outro deve ser o mais específico possível para o esporte praticado, para que o músculo desenvolva as capacidades necessárias para a execução repetitiva dos atos motores seqüenciais determinados pelo esporte.

Devemos levar encontrar que os músculos compõem-se de fibras que possuem características metabólicas diferenciadas:

I - baixa velocidade de condução do impulso, suporta prolongada tensão, baixo índice de fadiga com alta atividade oxidativa;

II - alta velocidade de condução do impulso, suporta tensão maior por tempo menor, alto índice de fadiga com baixa capacidade oxidativa.

A composição muscular de um indivíduo é determinada geneticamente, embora estudos mais recentes mostram uma plasticidade maior das fibras tipo II. Esta plasticidade ocorre em função do tipo de sobrecarga que é imposta a estas fibras.

O treinamento muscular deve ser expresso em porcentagem da carga máxima levando-se em conta o número de repetições de cada exercício, o número de séries, o tempo de execução do exercício, o tempo de repouso entre as séries e a seqüência de sua execução.

O fortalecimento muscular pode ser dividido em componentes de potência e resistência de força, de acordo com o trabalho realizado. A manutenção do equilíbrio entre musculatura antagonista e agonista de um movimento é condição essencial para que este movimento seja executado sem sobrecargas biomecânicas articulares. Atualmente já existem sistemas computadorizados (Cybex, Kinkon, Merec, etc.) que podem aferir com precisão dados como: trabalho executado, equilíbrio muscular, picos de torque, dentre outros.

Quanto à flexibilidade articular, sabe-se que a sua determinante é anatômica e extremamente individualizada para cada pessoa. A capacidade de um bom programa de treino de melhorá-la gira em torno de 30%. A sua perda diminui a eficiência mecânica do movimento. Fatores como idade e sexo influem decisivamente, devido à maior ou menor concentração de água no colágeno que compõe as estruturas periarticulares (menor teor de água, maior rigidez do sistema).

O exercício clássico para melhora desta flexibilidade é o alongamento. É dividido em componentes passivo e ativo (ativo, o atleta executa e passivo, executam no atleta). Os exercícios de alongamento devem ser executados antes e depois da atividade física (aquecimento e relaxamento ou volta à calma) Antes ele prepara o músculo para o exercício e depois ele o recupera deste mesmo exercício. Isto se reveste de importância pois sabe-se que as lesões musculares geralmente ocorrem com exercícios excêntricos (tensão grande com alongamento do sistema miotendíneo) e na transição miotendínea.

A maneira comumente utilizada para sua execução é séries de 5 repetições, com manutenção por 15 a 30 segundos, sempre sem resistência e com relaxamento muscular. Existem outras técnicas que podem potencializar este trabalho como a facilitação neuro-proprioceptiva (o atleta faz alongamento progressivo até o limite, contração isométrica seguida de relaxamento e novo período de alongamento.

A capacidade cardio-respiratória é dividida em componentes aeróbio e anaeróbio. Dentre os três itens discutidos é a que é mais facilmente mensurável e tem tido maior destaque na literatura. O componente aeróbio é aquele de características metabólicas oxidativas, responsável pelos exercícios de longa duração (provas de fundo e o anaeróbio é caracterizado por vias glicolíticas (ATP - CP e ácido lático), responsável por aquelas de curta duração (provas de velocidade).

Existem várias formas de desenvolver a capacidade aeróbia: andar, trotar, correr, pedalar, nadar, remar e dançar são algumas delas. Quanto à capacidade anaeróbia são os exercícios de alta intensidade e curta duração ("sprints") que causam o seu aprimoramento.
Há vários protocolos já bem conhecidos (Bruce, Ellestad, Wingate) que podem avaliar estas capacidades. Salienta-se que a capacidade aeróbia é o primeiro componente que deve ser trabalhado em qualquer programa de condicionamento físico, pois ele fornece a base para o desenvolvimento de outras capacidades.

Os itens anteriormente abordados têm como finalidade discutir conceitos básicos, não tendo o objetivo outro que não o de alertar todos os profissionais da área esportiva para o estabelecimento objetivo e realista de metas para um programa de treinamento que leve em conta: as características fisiológicas do atleta, com reavaliações freqüentes destas capacidades, as características biomecânicas de cada esporte, para que se possa maximizar o desempenho esportivo minimizando o número de lesões.

Na ocorrência de uma lesão decorrente de treino, a quantificação, subdivisão e organização deste mesmo treino nos seus componentes permite uma rápida identificação do agente causal com pronta intervenção terapêutica ara diminuir suas conseqüências.

>> Referências bibliográficas

Barbanti, V. J. Treinamento físico: bases científicas. São Paulo, Balieiro, 1988.

Hollmann, W.; Hettinger, T. Medicina de esporte. Traduzido por Maurício Leal Rocha. São Paulo, Editora Manole, 1989.
 
Aspectos Preventivos no Esporte Aspectos Preventivos no Esporte Revisado by Faça Fisioterapia on 06:53 Nota: 5