Flexibilidade e lesão no tornozelo do bailarino


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Poucos estudos tem sido publicados sobre a relação entre dança e lesão no bailarino levando ao desconhecimento do mesmo no que diz respeito aos cuidados necessários a serem tomados durante esta prática. A falta de informação por parte dos bailarinos, sobre o seu próprio corpo, faz com que o número de lesões seja cada vez maior, uma vez que muitos professores de dança apresentam-se totalmente despreparados no sentido de orientar seus alunos em questões anatômicas, cinesiológicas e fisiológicas, questões estas que estão diretamente ligadas à prática da dança no que se refere ao rendimento técnico e o máximo de segurança.

Observou-se durante a vivência entre bailarinos (iniciantes e experientes) com hipermobilidade da articulação talocrural (tornozelo), a sistemática falta de força dos mesmos e maior tendência à instabilidade articular em inversão na realização do trabalho de pontas durante a prática da dança, ou seja, a ocorrência de um desalinhamento do eixo vertical do tornozelo durante o trabalho de pontas onde o dedo mínimo é projetado em direção ao solo. Partindo desta observação fez-se necessária uma investigação mais aprofundada da presente questão objetivando conferir se esta hipótese é verdadeira para então prevenir o acontecimento de lesões.

Palazzi, Hernandez e Perez (1988) relatam que dança quando praticada com dedicação objetivando a perfeição, pode ser comparada aos esportes de competição, no que se refere ao número de horas praticadas diariamente. A partir do relato destes autores podemos pensar em dança como uma atividade com grande probabilidade de ocorrência de lesões pela alta exigência sofrida por alguns segmentos corporais, onde podemos citar a articulação do tornozelo.

Autores como Minguez (1988), Palazzi, Hernandez e Torrens (1992), entre outros, apontam a articulação do tornozelo como um dos segmentos onde acontece o maior número de lesões em bailarinos. Ocorre que, alguns bailarinos são donos de uma mobilidade articular acima da média, em que tem se observado uma possível relação entre esta característica articular e uma falta de força local, podendo ser este, um forte agravante no acontecimento de lesões. Segundo Minguez (1988), um aumento da prevalência de hipermobilidade articular em bailarinos, os predispõe a apresentar lesões ligamentares entre outras patologias; este autor ainda cita que, dada a intensidade desta atividade, a hipermobilidade em bailarinos pode ser considerada mais como uma desvantagem. A inter-relação entre hiperlassidão articular e a dança é freqüentemente ponderada e debatida, ainda que seu estudo científico seja bastante escasso.

Howse (1987) relata que, a partir de estudos com jovens bailarinos, concluiu-se que os bailarinos hipermóveis apresentam maior propensão a sofrer lesão do que aqueles sem hipermobilidade articular Em um bailarino com hipermobilidade articular a força é extremamente importante no controle deste aumento de mobilidade, que acompanha, com relativo equilíbrio, uma fraqueza muscular. Infelizmente estes jovens bailarinos hipermóveis, podem apresentar grande dificuldade em desenvolver força suficiente para controlar o aumento da mobilidade articular.

Segundo Shafle, apud Hergenroeder (1988) a falta de força no pé e tornozelo do bailarino pode resultar em entorses agudos do mesmo ou lesões por uso excessivo destes. A flexão plantar sobre o solo (trabalho de pontas) é um movimento articular de grande solicitação na maior parte das modalidades de dança. Este movimento é na dança denominado relevé. Bordier (1985) cita que o relevé executado em inversão é erro freqüente realizado pelo bailarino na prática da dança.

Gangneire, Euler-Zigler Fournier, Commandre (1998) apontam que a lesão mais comum no bailarino ocorre com freqüência em inversão do tornozelo. Distensões podem ocorrer em qualquer ligamento do pé e tornozelo, porém o mais comum envolve o complexo de ligamentos localizados lateralmente no tornozelo.

Reenstram (1999) concorda com os autores acima e explica que, a lesão ligamentar lateral se dá tipicamente em flexão plantar em inversão, pois é a posição de máximo estresse do Ligamento Tíbio Fibular Anterior (LTFA), este é o mais frágil dos ligamentos laterais. Com o pé na posição anatômica, o LTFA corre paralelo ao eixo do pé, quando este se encontra em flexão plantar sobre o solo (relevé), o LTFA, corre paralelamente ao eixo da perna, ficando desta forma, mais suscetível à lesão, uma vez que as torções ocorrem geralmente em flexão plantar e em inversão. O trabalho de pontas é um exemplo típico que pode enquadrar-se no que explica este autor.
Hamilton (1988) afirma que muitos problemas podem ocorrer em uma distensão dos ligamentos durante um entorse de grau III (entorse severo). Esta situação ocorre no momento em que o tornozelo deixa de seguir o alinhamento da perna por uma questão de instabilidade, gerada provavelmente pelo déficit de força da musculatura local para manter a posição de relevé perpendicular ao solo.

Segundo Gleim, Mchugh (1997) muitos especialistas em Medicina do Esporte acreditam que a flexibilidade assume importante papel na ocorrência de lesões, ainda que possa apresentar-se de diferentes formas conforme a modalidade esportiva realizada; porém, estes autores concordam que a flexibilidade dinâmica para lesões ainda não tem sido investigado.


PESQUISA

Relacionando-se a observação de bailarinos hipermóveis com fraqueza muscular e, a revisão bibliográfica realizada anteriormente, conclui-se que somente através de uma pesquisa científica seria possível considerar a possibilidade desta questão ser verdadeira. A partir desta pesquisa bibliográfica foi realizada também uma pesquisa de campo onde se investigou a relação entre flexibilidade e lesão da articulação talocrural no trabalho do relevé em pontas (flexão plantar talocrural e metatarsofalangeana sobre o solo) em bailarinas semiprofissionais de Ballet Clássico.

Metodologia - a amostra pesquisada (composta por 8 bailarinas) foi selecionada através de Anamnese (informações como idade, tempo de prática de dança e carga horária e perna dominante), IMC (Índice de Massa Corporal, para certificar-se de que não há bailarina com aumento de peso) e mensuração da amplitude de flexão plantar talocrural de ambos os tornozelos a partir de um flexímetro (aparelho utilizado para medir a ADM - Amplitude de Movimento Articular). Vale salientar que os graus de flexão plantar talocrural encontrados nas bailarinas selecionadas para compor a amostra variaram em seus valores do mais baixo ao mais alto grau de flexibilidade, objetivando desta forma, verificar se as bailarinas com maior grau de flexibilidade talocrural apresentarão maior tendência a sofrer entorse em inversão na prática do relevé, do que as bailarinas com menor flexibilidade na referida articulação. O programa compreendeu de um período de dois meses e meio onde foram observadas (filmadas) dez aulas (sessões) de Ballet Clássico, sendo os exercícios realizados com leve apoio de uma barra fixa e no centro da sala sem apoio nenhum. Em aulas de Ballet, a maior parte dos exercícios tem uma duração que varia de quinze segundos a poucos minutos onde se trabalham contrações do tipo isométrica, concêntrica e excêntrica, exercícios de resistência muscular localizada (principalmente em membros inferiores), força rápida e resistência de força e flexibilidade. O tempo de duração de cada aula varia entre 1h30min. a 2h de duração.
Também buscando coletar dados, a amostra respondeu a um questionário do tipo fechado (informações sobre possíveis instabilidade articulares e lesões de tornozelo pregressas) e submeteu-se a um teste de equilíbrio (Eurofit, 1988).

Resultados - a análise dos resultados, a partir dos dados coletados, foi apresentada segundo valores encontrados a partir do teste t - student para dados pareados, onde foram levadas em consideração as variáveis ADM talocrural, IMC, teste de equilíbrio e número de inversões ocorridas durante a pesquisa. Em função dos resultados obtidos, concluiu-se que o número de inversões aconteceram com maior freqüência nos tornozelos mais flexíveis com um nível de significância < 0,05. A partir desta tendência, constatou-se que bailarinas com aumento de flexibilidade talocrural apresentaram um déficit de força local, ficando desta forma mais expostas ao risco de sofrer entorse.


CONCLUSÃO

A partir dos resultados obtidos, foi possível refletir e concluir que como um mecanismo de prevenção, seria prudente por parte dos professores de dança, uma maior interação sobre questões anatômicas, cinesiológicas e fisiológicas do bailarino e não somente nas questões artísticas. Um bailarino trabalhado de forma consciente e cuidadosa na parte técnica é um bailarino com maior probabilidade de apresentar alto rendimento em termos de performance além de um maior tempo de vida útil durante sua carreira, não somente no período profissional, mas desde sua iniciação na dança, momento este de suma importância na vida de um bailarino, pois compreende a fase de seu desenvolvimento, quando ocorrido na infância.

Fonte
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