Incidência de lesões esportivas em atletas de voleibol profissional


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O voleibol é um esporte coletivo que exige esforços próximos ao nível máximo de intensidade, favoráveis ao acometimento de uma série de lesões nos atletas. Lesões essas capazes de gerar preocupações tanto para os atletas lesionados quanto para os técnicos e dirigentes esportivos, haja vista que além do comprometimento físico e psíquico do desportista, o clube pode ser prejudicado durante o tempo em que o atleta encontrar-se lesionado (Vimieiro-Gomes e Rodrigues, 2001; Santos et al., 2005). Considera-se lesão qualquer descontinuidade traumática ou patológica do tecido, ou perda de função de uma parte. Lesão desportiva é um tipo de lesão que é acidental em alguns esportes e mais incidente em outros, como nos de alto contato, sejam individuais ou coletivos. Quase toda modalidade esportiva apresenta risco de lesões musculares, estresse psicológico e outros agravos (Moraes e Bassedone, 2007). As lesões são resultantes de uma complexa multi e interfatoriedade de riscos. Sua etiologia pode associar-se a fatores intrínsecos como idade, sexo, condição física, desenvolvimento motor, alimentação e condições psicológicas, dentre outros. 

Os fatores extrínsecos se associam à especificidade técnica de cada modalidade, aos equipamentos utilizados, à organização e cargas do treino e da competição e às condições climáticas. Os mecanismos básicos de lesões de acordo com a medicina desportiva são: contato ou impacto, sobrecarga dinâmica, uso excessivo –overuse-, vulnerabilidade estrutural, inflexibilidade, desequilíbrio muscular, crescimento rápido, deformação por esmagamento, impacto impulsivo, aceleração esquelética, absorção de energia e extensão e grau de deformação tecidual (Santos et al., 2005 e Silva et al., 2005). Na visão de Sakamoto, Parcesepe e Bojikian (2009), os fatores físicos são as principais causas das lesões desportivas. No voleibol especificamente, essas se associam a esforços repetitivos, principalmente aos saltos, que são considerados os maiores causadores das lesões nos joelhos de voleibolistas. O overuse também é responsável pela alta incidência de lesões nos ombros desses atletas (Ejnisman et al., 2001). Em relação às lesões agudas a entorse de tornozelo se desponta como mecanismo de lesão mais frequente entre atletas dessa modalidade (Cardoso et al 2005). Ao se considerar essas premissas o objeto de estudo da presente pesquisa foi averiguar a incidência de lesões esportivas em atletas de uma equipe de voleibol profissional.

Metodologia 
    
O delineamento do presente estudo caracterizou-o como pesquisa de natureza descritiva, de abordagem quantitativa, retrospectiva e de caráter transversal.
    
A população foi composta por atletas que compuseram uma equipe profissional de voleibol em Montes Claros – MG, durante o primeiro semestre de 2010. De acordo com o fisioterapeuta responsável por essa equipe e pela clínica fisioterapêutica referência para assistência a esses atletas, no período delimitado pelo estudo, 11 atletas foram vítimas de lesões, o que possibilitou a avaliação de 11 prontuários de atendimento fisioterapêutico na referida clínica. Considerou-se como critério de inclusão para avaliação dos prontuários, que o atleta tivesse idade acima de 18 anos, com histórico de lesão musculoesquelética nos últimos 24 meses durante os treinos e/ou jogos e que tenha realizado tratamento fisioterapêutico no primeiro semestre de 2010.
    Para a realização desse estudo utilizaram-se: formulário de autorização para realização da pesquisa na clínica fisioterapêutica onde os atletas são assistidos e formulário estruturado constituído por 10 itens elaborado pelos autores do estudo e que avaliou dados referentes à idade, posição em quadra, situações e mecanismos envolvidos na lesão, diagnóstico e segmento corporal lesionado e história prévia de outras lesões, dentre outras.
    A estratégia adotada para a obtenção dos dados deu-se a partir de levantamento nos prontuários de atendimento fisioterapêutico e por meio de entrevistas ao fisioterapeuta responsável pela assistência fisioterápica aos atletas e responsável pela clínica de fisioterapia que assiste aos voleibolistas. Obteve-se a análise dos dados por estatística descritiva por meio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) - 18. O estudo foi autorizado pelo Comitê de Ética e Pesquisa das Faculdades Unidas do Norte de Minas (CEP-FUNORTE) sob o parecer consubstanciado nº 1261/10.

Resultados e discussão

    A análise dos prontuários permitiu identificar que os atletas apresentaram média de idade de 26,64 anos (±4,3). Entre os que sofreram lesões, 36,4 % (n=4) eram ponteiros, 27,3% (n=3) opostos, 18,2% (n=2) meios de rede e 18,2% (n=2) levantadores. O estudo de Moraes e Bassedone (2007) que descreveu a incidência de lesões entre jogadores da Superliga Nacional de Voleibol averiguou que os jogadores que exercem a função de ponteiros foram os que mais se lesionaram. Provavelmente pelo acúmulo de funções técnico e tática, uma vez que, além atuar na rede, são co-responsáveis com os líberos pelo passe e ainda podem exercer a função ofensiva. No presente estudo, os jogadores que exercem essa função também foram os mais susceptíveis a lesões. Já no estudo epidemiológico de Arena (2005) referente às lesões esportivas entre atletas jovens, se constatou que entre os jogadores de voleibol, os que ocupam a posição de meio de rede apresentaram maior frequência de lesões. Quanto à incidência de lesões verificou-se que 63,3% dos atletas (n=7) tiveram como mecanismo da lesão traumatismos indiretos; 45,5% (n=5) se lesionaram durante treinos; 36,4% (n=4) durante jogos e 18,2% (n=2) tanto em atividades de treinamento quanto em jogos. A pesquisa de Farina e Mansoldo (2006) em meio a atletas federadas de base do voleibol no estado de São Paulo verificou que 74% dos atletas sofreram lesões durante treinamentos e os demais durante jogos ou coletivos. A incidência de lesões por segmentos corporais são apresentados na Tabela 1.
Tabela 1. Incidência lesão por segmento corporal
    Para Ingham et al. (2007) a literatura evidencia que a torção de tornozelo é a lesão mais frequente no voleibol, sendo responsável por cerca de 15% a 60% de todas as lesões. Fortes e Carazzato (2008) além de concordarem com essa alta frequência esclarecem que as mesmas têm como principais fatores de risco os movimentos de aterrissagem e saltos vinculados aos fundamentos de bloqueio e ataque. Em relação ao período de instalação da lesão, observou-se que 36,4% (n=4) dos atletas lesionaram-se no 4º mês após o início da temporada. Verificou-se também 54,5% (n=6) apresentaram lesões recidivantes. A Tabela 2 esboça os diagnósticos associados às lesões.
Tabela 2. Diagnósticos associados às lesões
    O estudo de Moraes e Bassedone (2007) averiguou alta incidência de lesões musculares entre os atletas, perdendo apenas para os processos inflamatórios. Esse alto índice associa-se às peculiaridades dessa modalidade desportiva como as combinações de aceleração e desaceleração envolvidos nos movimentos de saltos, viradas e cortadas dentre outros.
    No que se refere à reabilitação fisioterapêutica dos atletas lesionados, averigou-se que o número médio de sessões realizadas é de 13,2 (±12,0) sessões. A Tabela 3 detalha as condutas fisioterapêuticas abordadas com os atletas.
Tabela 3. Conduta fisioterapêutica
    O estudo de Menezes, Menezes e Santos (2008) que teve por objetivo verificar as lesões que mais acometem o atleta de voleibol de praia masculino de alto-nível, identificou que o fisioterapeuta foi o profissional mais procurado pelos atletas lesionados. Verificou-se ainda que a maioria absoluta dos atletas (75%) realizam a modalidade fisioterapêutica de crioterapia após os jogos com intuito de prevenir a cronicidade de artralgias.
    Na presente pesquisa constatou-se que as condutas mais utilizadas pelo fisioterapeuta responsável pelo atendimento dos atletas em estudo foram: crioterapia, cinesioterapia, massoterapia e kinesio tape. De acordo com Prentice (2002) a crioterapia nesses agravos apresenta eficácia principalmente na promoção da analgesia e na redução do processo inflamatório. Para Wood e Domenico (2008) as manipulações massoterápicas podem constituir-se em uma parte extremamente útil do plano terapêutico de traumatismos ou afecções locais, onde dentre as indicações terapêuticas, destacam-se a minimização do processo inflamatório, o auxílio no processo cicatricial e o alívio do quadro álgico.
Conclusão
    O estudo permitiu concluir a existência de alta incidência de lesões entre os atletas de voleibol, principalmente entre os ponteiros. Em sua maioria, as lesões são causadas por traumatismos indiretos, durante treinos, têm como característica serem recidivantes e o principal seguimento corporal lesionado é o tornozelo. Os principais diagnósticos são as lesões musculares e em relação à reabilitação fisioterapêutica verificou-se que são realizadas em média, 13,2 sessões, onde as modalidades terapêuticas mais utilizadas são crioterapia, cinesioterapia, massoterapia e kinesio tape.
Referências
  • Arena, SS. Estudo epidemiológico das lesões esportivas no basquetebol, futsal e voleibol ocorridas em atletas jovens: aspectos de treinamento e acompanhamento médico. 2005. Tese (Doutorado de Ortopedia e Traumatologia) – Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
  • Cardoso, JR et al. Influência da utilização da órtese de tornozelo durante atividades do voleibol: avaliação eletromiográfica. Rev Bras Med Esporte, 2005, v. 11, n. 5, p. 276-280.
  • Ejnisman, B. et al. Lesões músculo-esqueléticas no ombro do atleta: mecanismo de lesão, diagnóstico e retorno à prática esportiva. Rev Bras Ortop, 2001, v. 36, n. 10, p. 389-393.
  • Farina, ECR; Mansoldo, AC. Incidência das lesões em atletas federadas nas categorias de base do voleibol no Estado de São Paulo. Lecturas: Educación Física y Deportes. Buenos Aires, 2006, v. 11, n. 101. http://www.efdeportes.com/efd101/volei.htm
  • Fortes, CRN; Carazzato JG. Estudo epidemiológico da entorse de tornozelo em atletas de voleibol de alto rendimento. Acta ortop. bras. 2008;  v. 16, n. 3, p: 142-147. 
  • Ingham, SJM; et al. Torções de tornozelo em atleta feminina de voleibol. Rev Med. Reabil. 2007; v. 26, n. 2, p. 25-29.
  • Menezes, Menezes e Santos. Análise das lesões mais freqüentes nos atletas de voleibol de praia masculino de elite. Lecturas: Educación Física y Deportes. Buenos Aires, 2008, v. 12, n. 116.http://www.efdeportes.com/efd116/lesoes-mais-frequentes-nos-atletas-de-voleibol-de-praia.htm
  • Moraes, JC; Bassedone, DR. Estudos das lesões em atletas de voleibol participantes da Superliga Nacional. Lecturas: Educación Física y Deportes. Buenos Aires, 2007, v. 12, n. 111.http://www.efdeportes.com/efd111/estudo-das-lesoes-em-atletas-de-voleibol.htm
  • Prentice, WE. Modalidades terapêuticas em medicina desportiva. São Paulo: Manole, 4. ed., 2002, 309 p.
  • Santos, SG et al. Magnitudes de impactos das cortadas e bloqueios associados com lesões em atletas de voleibol. Lecturas: Educación Física y Deportes. Buenos Aires, 2005; v.10, n. 87.http://www.efdeportes.com/efd87/volei.htm
  • Sakamoto, M; Parcesepe, R; Bojikian, JCM. A contribuição da intervenção psicológica da recuperação do atleta de voleibol lesionado. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte – 2009, v. 7, n. 3.
  • Silva, ML. Prevalência de Lesões em Atletas de Voleibol Masculino da Unisul - Universidade do Sul de Santa Catarina. Santa Catarina: 2005. Disponível em: http://www.fisio-tb.unisul.br/Tccs/MarcosLuiz/tcc.pdf Acesso: 30 outubro 2010.
  • Vimieiro-Gomes, AC e Rodrigues, LOC. Avaliação do estado de hidratação dos atletas, estresse térmico do ambiente e custo calórico do exercício durante sessões de treinamento em voleibol de alto nível. Rev. Paul. Educ. Fís, 2001, v. 15, n. 2, p: 201-211.
  • Wood, E; Domenicco, G. Técnicas de Massagem de Beard. São Paulo: Elsevier, 5. ed., 2008, 352p.
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