Fisioterapeuta de Anderson Silva conta histórias das lesões no MMA


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O UFC 133 ficou marcado pelas lesões que tiraram de ação muitos dos lutadores escalados para o evento. Rogério Minotouro, Phil Davis, Nick Pace, Kid Yamamoto, Riki Fukuda, Vladimir Matyushenko e Alessio Sakara foram anunciados oficialmente no card antes de se lesionarem e se retirarem do evento, que acontece neste sábado na Filadélfia. Para ficar de fora de grandes lutas, porém, é preciso uma contusão das mais sérias, conforme comprova a experiência de Jackeline Figueiredo, fisioterapeuta de astros do MMA como Anderson Silva, Rafael Feijão e Ronaldo Jacaré e que já viu os casos mais bizarros de lesão em 15 anos de atuação no mundo das lutas.

Segundo Jackie, como é chamada pela turma da luta, o limiar de dor desse tipo de atleta é muito diferente dos demais. Enquanto muitos jogadores de futebol não entram em campo se tiverem qualquer lesão muscular na perna, alguns lutadores convivem com até 12 hérnias de disco e seguem treinando. Para tratá-los, é necessário um conhecimento do esporte e dos limites de cada atleta.

O caso de Érica Paes, única lutadora a derrotar a campeã dos pesos pena do Strikeforce, Cris Cyborg, é um exemplo disso. A lutadora, que está planejando sua volta aos combates após seis anos afastada, sofreu uma hérnia de disco lombar extrusa que, segundo dois médicos, exigiria cirurgia e encerraria sua carreira aos 30 anos de idade. Nas mãos de Jackie, porém, Érica fez tratamento específico e, em dois meses, está pronta para voltar aos treinos.

Érica Paes e Jackeline Figueiredo fisioterapia (Foto: Adriano Albuquerque/SporTV.com)

- O médico também tem que ter esse conhecimento, senão vai dizer que o lutador não pode lutar. Médico quer fazer a prevenção - conta Jackeline, que trabalha com médicos que também são praticantes de lutas ou que têm experiência no futebol, como Victor Favilla.

As lesões são as mais variadas possíveis, mas as mais comuns acontecem na lombar e nas articulações, castigadas com as muitas imobilizações do jiu-jítsu. Para todas, há um "jeito" de tratar e levar para a luta, exceto as lesões na costela, que Jackeline "não negocia". Mesmo assim, Anderson Silva enfrentou Chael Sonnen em setembro de 2010 com uma contusão na região - na época, ele estava treinando nos EUA e não fez tratamento no Rio. O "Spider" foi à clínica de Jackie no começo do ano passado, logo após passar por cirurgia no cotovelo direito, do qual retirou fragmentos para recuperar a extensão total do braço.

- Ele chegou aqui cerca de 20 dias depois de operado, sem força no braço. Ele recuperou rápido e fomos acresentando exercícios de força. No quarto dia de sessão, ele já tinha recuperado bastante, e eu disse, "Anderson, bota o quimono e vai fazendo trabalho de pano", porque eles trabalham muita pegada. Ele disse OK. Aí, me ligou o Rogério (Camões, técnico de Anderson) e perguntou, "Jackie, você liberou o Anderson pra treinar? Porque ele está aqui jogando saco de 40kg com o Feijão"... Aí eu disse, "Pronto, acabou a fisioterapia"... Ele nunca mais veio, só falou por telefone - lembra a fisioterapeuta, que recebeu uma câmera filmadora de presente do lutador para registrar o tratamento.

Entre os pacientes de Jackie, estão vários membros da família Gracie. Royler, tetracampeão mundial de jiu-jítsu, foi o primeiro lutador a requerer seus serviços, e lutava normalmente mesmo com fraturas no pé. Além dos Gracie, ela atende atletas da equipe X-Gym como Roberto Corvo, que sofreu uma luxação no ombro na mesma semana de uma luta, fez tratamento intensivo, lutou e venceu.

Nenhum deles, porém, supera as histórias de Ronaldo Jacaré, atual campeão dos pesos médios do Strikeforce. Antes de sua última luta, em que defendeu o cinturão contra Robbie Lawler e venceu por finalização, Jacaré apareceu na clínica dizendo que estava muito bem, só com um pequeno incômodo nas costas. Quando levantou a camisa, tinha um edema enorme no quadril. Era uma desinserção no transverso do abdome, um dos músculos mais fortes do corpo humano.

- Com uma lesão dessas, uma pessoa normal já estaria internada. Mandei ele pro Victor Favilla, e ele disse, "Que é isso, cara? Nunca vi na minha vida!", e eu disse, "vai se acostumando, porque só vou mandar daí em diante!" Ele quase fez uma fratura. Fez essa lesão na luta anterior e foi treinar. Tratamos e em uma semana ele estava ótimo. Levaria um mês e meio pra recuperação numa pessoa normal, talvez tivesse até que andar de muletas ou cadeira de rodas - explica Jackie.

Ronaldo Jacaré fisioterapia (Foto: Divulgação)

Outra história memorável de Jacaré aconteceu numa de suas lutas com Roger Gracie no Mundial de Jiu-Jítsu, categoria absoluto. Roger conseguiu uma chave de braço, mas Jacaré se recusou a bater. Seu braço eventualmente estalou, dando um susto em Roger, que soltou a posição e pediu que a luta fosse encerrada. Mesmo com o antebraço pendurado, Jacaré não desistiu, colocou o braço colado na faixa e terminou derrotando o rival.

- Não fizemos cirurgia, fizemos uma desinserção muscular. (O prazo era de) 75 dias pra voltar; ele voltou em 35, pronto pra lutar de novo. Ele vinha pra fisioterapia de manhã e de tarde, fazíamos muito trabalho na piscina, e às vezes ele sumia lá dentro. O Jacaré estava sentado dentro da piscina, fazendo exercício de apneia, testando o fôlego. Hoje, esse braço dele é mais forte que o outro - diz Jackie.

Embora pareça impossível evitar lesões num esporte com tanto contato e queda, Jackeline diz que é possível prevenir as contusões com um trabalho de profilaxia, que ainda não é muito seguido pelos grandes nomes e está fora de alcance para lutadores mais humildes.

- Isso já acontece nos esportes olímpicos e coletivos, que têm toda uma assistência, com médico, preparador, fisioterapeuta, e isso não acontece muito com o MMA. Fisioterapia não é só pra quando machucar, é antes também, pra não deixar ficar machucado. É alongamento, trabalho de flexibilidade, de musculatura. Claro que eles vão se machucar, mas pode melhorar muito. Mas isso também tem um custo e eles não têm como pagar uma fisioterapia. A grande maioria que ainda não chegou lá não tem patrocinador, plano de saúde.

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